Música de elevador

Na Coletiva, pergunta da repórter Amanda Morais para o vice-líder do MDB, Pedro Buriti (MDB/AC), sobre os boatos de que parlamentares de seu partido teriam como intenção tumultuar as sessões e ofender a Mesa Diretora. Música de suspense. A resposta buscou tom amenizador e pacificador, as notas eram sustenidas: “Não tenho conhecimento sobre nenhuma conduta deste tipo dentro do meu partido”, disse Buriti, tranquilo. Ao Líder do PT, fez-se uma pergunta parecida. O ar de ansiedade substituiu o ar condicionado. “O partido passou por cima de uma decisão do antigo Bloco Progressista para colocar membros de seu partido na presidência da CSSF?” Pausa. Respondeu voltando à música em um pianissimo. “Nossa relação com o Bloco Progressista é a melhor possível, nada disso aconteceu.” O Presidente da Casa acenava positiva e sutilmente com a cabeça, no tempo da melodia. Assim, aquele que uniu 8 partidos, de 11, em um Bloco e que conseguiu, no final, se sentar à cadeira que agora ocupa deixava claro quem, afinal, regia aquela sinfonia.

Mas a questão trazida por esta mera análise semi-musical é sobre a diferença entre o que sai da boca do coro e o que aparece a nós, jornalistas, nos corredores. As composições são de gênero e tonalidade gritantemente divergentes. Da porta pra fora, a música que toca é pesada, com tons baixos e diminutos, sai grave e rápida da voz dos cantores, que não gostam de se identificar. Quando há apresentação marcada, a banda-mor se posiciona no palco com um sorriso no rosto e a regência dita o tom: maior, fluido, limpo. “Tudo está bem, nada de ruim acontece, tudo nos conformes”. E a plateia, formada pelos mesmos cantores agressivos e inconformados de corredor, aplaude, como se a eles fosse verdade. Este jornalista, sentindo-se cada vez mais surdo a cada nota que ouve, indaga: qual música realmente é a trilha sonora deste ambiente democrático, afinal?

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