No retrovisor: Politeia 2018

om licença, senhor presidente, será que o nobre deputado me concederia um aparte? É que não sou membro da comissão, não disponho de tempo de liderança, sou apenas uma observadora participante.

Enquanto eu falo, será que a fotógrafa poderia fazer um registro do meu discurso no Plenário? Obrigada. É pra postar no Facebook e no Instagram, com uma legenda bem pró-democracia. Com certeza vou impressionar meus familiares e amigos.

Pois bem. Eu nunca uso “pois bem” na vida real, mas aqui cabe, vai? Vim neste espaço pra usar umas roupas formais com uns broches partidários e propor umas paradas que eu acho que podem fazer do nosso Brasil um lugar melhor. Um projeto de lei ou um projeto de lei complementar. Mas sem esquecer: a sigla é “o” PL, não “a” PL. Se falar “a” PL, vai ter gente olhando torto. Se for jornalista errando então, piorou.

Aliás, vim também pra isso. Pra fazer entrevista e publicar matéria. Porque não existe democracia sem imprensa livre. Vim pra falar, replicar, apurar, reportar, noticiar, informar, aprender, discursar, ouvir. Vim pra ver que projetos de país outros jovens como eu estão pensando.

E acabei vindo também pra fazer novos amigos. Quer dizer, aliados. E talvez conquistar alguns adversários também. Mas me disseram pra respeitá-los. Foi a palavra de ordem aqui. Respeito.

No percurso, acabei rindo com os nobres pares em algumas ocasiões. Inevitável. A gente ri um do outro porque no fundo sabe que isso aqui é uma simulação, por mais que toda a profissionalização em volta faça parecer o contrário.

Às vezes a gente não tem tempo pra se preparar pra falar e é pega de surpresa, aí vai no freestyle mesmo. Não deu pra estudar essa matéria, senhor presidente, peço escusas aos nobres colegas. Eu estava me dedicando a um projeto cabeludo que caiu no meu colo.

Opa, olha o decoro, senhores deputados! Senhor presidente, peço que restitua meu tempo de fala, por gentileza.

Mas vamos votar, senhor presidente, que ainda temos uma pauta extensa pela frente.

Queria dizer que eu vim de longe. De Cuiabá, Pernambuco e São Paulo. Do Rio de Janeiro e do Maranhão. De Minas Gerais e de Santa Catarina. Ou às vezes só peguei um baita trânsito de alguma satélite pro Plano Piloto mesmo.

Vim porque acredito nisso aqui. Vim pra aprender sobre processo legislativo. Vim pra saber um pouco mais de política. Vim pra dar voz àqueles que acho que são mal representados. Vim pra parar de só criticar e colocar um pouco a mão na massa.

Lembro aos nobres colegas que é proibido comer nas dependências da Câmara. Também é proibido faltar com o decoro para com os colegas. São normas da Casa.

Casa. Vou apresentar uma emenda ao relatório pra ressignificar essa palavra.
Casa do povo. Casa em que a gente se encontra e passa o dia discutindo projetos que a gente acha necessários. E tentando rejeitar os que a gente discorda. Ou pelo menos retirar de pauta. Sei lá, obstruir.

Mas se fosse pra propor um projeto, eu ia propor essa simulação pra todo jovem desse país. Opa, taí! Cadê o requerimento? Secretário da Mesa, por favor. Pera, preciso de apoiamento, cadê a outra nobre deputada pra me dar assinatura aqui? Ah, tá na outra comissão. É que são tantas pautas…

Ufa! Até fiquei com a sensação de que tudo passou muito rápido. Quando vi, já era sexta-feira.

Eu sei, eu sei. Já tá na hora de encerrar essa sessão. Desculpa por me alongar, senhor presidente. Mas antes que o senhor toque a sirene, solicito mais 30 segundos só pra concluir minha fala, por favor. Obrigada pelo aparte, senhor presidente. Que fique registrado nos anais desta Casa que eu ficarei saudosa. Mas já estou me articulando com meus colegas pra 2019. Nos vemos de novo na sessão do ano que vem, com novas ideias, novos projetos e também um novo governo recém-gestado por nós, brasileiros e brasileiras. Até lá!

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